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Prosa

2014 – A Virada – Adeus, Ano Novo!

Os anos agora passam sem que seja possível notar a diferença entre os dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. A sensação é de um continuum em que a única coisa que se altera, além do último algarismo que escrevemos nas datas, é a quantidade de fracassos que acumulamos.

Início de ano, portanto, é tão deprimente quanto os fins. Esperançosos, fazemos listas de metas que não passam da primeira semana. Logo que as férias terminam, somos engolidos por compromissos intermináveis e tudo o que sobra do que desejamos realmente ser e fazer segue sendo adiado até o próximo tempo livre. Quando este chega, enfim, estamos novamente tão cansados e esgotados que tudo o que conseguimos fazer é fazer nada.

Ainda não fui capaz de entender qual o lugar que nossa essência e individualidade devem ocupar no modo de vida atual. Se seguirmos a ordem esperada de estudo, trabalho, casamento e filhos acabamos presos neste ciclo de cansaço e frustração onde os sonhos são sempre empurrados para o fim da vida, no qual supostamente teríamos tempo e recursos para fazer o que quisermos, porém sem o mesmo vigor, a mesma paixão e a mesma coragem da juventude.

O que seria esta vida então senão uma grande perda de tempo, apenas cumprindo o papel de mais uma engrenagem do sistema de produção? Vejo a autenticidade e o desejo se apagarem dia após dia nas armadilhas das obrigações e responsabilidades. É por isto que as escolhas me assustam. Cada caminho que percorro me coloca um peso das experiências eternamente perdidas nos caminhos deixados para trás.

Ficar parada, no entanto, apesar de também ser algum tipo de escolha, faz com que eu perca não apenas algumas possibilidades de existência, mas todas elas. Gostaria de encontrar estradas mais flexíveis, em que fosse possível voltar ao mesmo ponto, à mesma encruzilhada, com os mesmos fatos outrora perdidos esperando apenas que eu os experimentasse sem este enorme medo de perder.

O grande problema, na verdade, não é a perda em si, mas a perda irremediável. Se eu soubesse que aquelas portas que se fecharam poderiam ser novamente abertas em algum ponto qualquer a escuridão seria ao menos suportável. O temporário é bem menos odioso do que o permanente, em se tratando de portas fechadas e ausências.

Mais um ano se passou como se nada houvesse acontecido. Realmente nada aconteceu: após mais uma noite veio outro dia em que o passado serviu apenas para engolir outras possibilidades de futuro. Adeus, ano novo! Feliz vida velha.

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Sobre Paola Giovana

Sou catalisadora, capricorniana e artista. Faço o que gosto: crio. Acredito que vá gostar. Sei que ao menos não ficará imune. Minhas armas são irresistíveis: cinema, design, música e literatura.

Discussão

4 comentários sobre “2014 – A Virada – Adeus, Ano Novo!

  1. Tenho pensamentos muito parecidos com o seus em alguns momentos, mas o negócio é não pensar que cada passo da caminhada é uma escolha definitiva, porque nada é definitivo, segundo o budismo a causa de sofrimento humano principal é a necessidade de segurança e durabilidade de uma felicidade imaginada, se a cada minuto vivermos o presente, buscando a felicidade no aqui e agora, sofremos menos, e a ilusão de escolha desaparece. Cada passo que damos é um aprendizado, não podemos viver desejando voltar atrás e pensar no que se deixou, a medida que se anda, milhares de outros caminhos se abrem. Busque a felicidade agora, o que se tem agora é a única realidade que existe, o passado é memória, futuro é imaginação. Enfim, espero que todos possamos encontrar nosso caminho =)

    Publicado por cari | 31/01/2014, 20:30
    • Ei Cari!

      Bem, é difícil pensar que as escolhas não são definitivas, porque todo instante que passa já está irremediavelmente perdido, ainda que se repita de outra maneira. Como o rio, que nunca é o mesmo quando mergulhamos uma segunda vez… Mas se o presente é tudo o que temos nas mãos, que ele seja mesmo bem aproveitado, sem as angústias do passado e do futuro. Espero aprender a tornar o caminho mais leve. 😉

      Bom você passar por aqui!

      Bjos!

      Publicado por Paola Giovana | 12/02/2014, 9:45
  2. Eu espero profundamente que sua vida não seja – para todo o sempre – somente vazio e repetição.

    Não consigo ver um novo ano da mesma forma que você, minha flor… talvez por eu viver me “movimentando”, pq não sei ver que tudo em mim é sempre igual a cada ano. no final, eu sempre vejo milhares de coisas que fiz, que mudaram, que aconteceram, que me estreparam ou me alegraram profundamente! Lógico, há sempre aquela sensação de continuum com o que não pudemos realizar, mas ainda assim não sei ver dessa forma desesperançosa e vazia que te pesa.

    Só posso desejar nesse desembolar de fevereiro, que renasça você, que renasça sua vida, a cada ano, a cada dia… que você possa se reinventar e descobrir que nem sempre as coisas são pretas ou brancas… é como sempre falo contigo: tem muita cor na vida pra você enxergar apenas uma!

    Mesmo com a chatice das escolhas, nem tudo se vai, nem toda porta se fecha… a gente se reinventa, novas portas se abrem, outras realmente fecham, umas permanecem… mas a realidade é que continuum ou não, não vivemos o tempo… vivemos dentro do tempo. Ele é o que fazemos dele. O que você deve buscar é a SUA felicidade todos os dias, sem cansar, sem ficar com preguiça, sem deixar caminhões de dores e pesares te atravessarem o tempo todo. Cada um é responsável pelo seu próprio continuum e ninguém pode levar a culpa pelo que fazemos dele!

    Fica aqui o calorzinho e o aconchego de quem não entende nada de vida, mas agora sabe que o tempo é! hauhauhauah

    Te amo! ♥

    Publicado por Mari Andrade | 19/02/2014, 22:57
    • Ei meu amor!

      Bem, não é que a minha vida seja somente vazio e repetição. Foram apenas reflexões sobre o que eu não gostaria que ela fosse, no fim. Às vezes tenho esta sensação desagradável, às vezes não. Mas que bom que os novos anos não são tão chatos pra você! Espero que os próximos sejam melhores que os últimos, pra nós duas. Agora, sobre escolher… Não gosto mesmo! hahaha Mas às vezes (muitas vezes) é necessário, e o que mais me incomoda é a incerteza sobre a melhor escolha, a tristeza de ter perdido oportunidades melhores e tal… Mas é sempre possível mudar, não é mesmo? Ainda que as mesmas opções não estejam disponíveis e os caminhos sejam outros, podemos voltar a buscar um sonho antigo. Linda que eu amo! ❤

      Publicado por Paola Giovana | 21/02/2014, 18:32

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