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Prosa

Uma Criança e um Pacote de Bisnagas

Não consegui dormir. Tinha as milhares de coisas de sempre pra fazer e passei a noite em claro não fazendo nada além de pensar nas tarefas eternas até o fim dos meus dias. O mau humor foi inevitável. Depois de abrir e fechar os olhos por no máximo 3 horas o telefone tocou pela última vez. Era o momento de abrir o portão e esperar a criança.

Antes mesmo de me cumprimentar foi entrando pela casa, com a autoridade de um dono do território. O menino mora com a minha mãe e nasceu dela assim como eu, mas desde cedo já enfrenta os conflitos de personalidade, de geração, ou como você prefira chamar essa coisa estranha que acontece em toda família e que faz os pais sempre discordarem dos filhos. Ele trazia apenas a roupa do corpo, uma sacola plástica com uma jaqueta jeans, um chinelo para trocar pelas sandálias e um pacote de bisnagas. E uma energia tão grande que nunca cabe só nele.

Você conhece as crianças: elas pulam, gritam, teimam, fazem pirraça e quase sempre ignoram os seus motivos de adulto para ter pelo menos alguns instantes de silêncio e solidão durante o dia. Você não conhece o meu irmão. Ele é uma criança, e só trouxe de casa o pacote de bisnagas. Não veio com o manual de instruções, o botão de liga-e-desliga, nem o desenvolvimento dos dois ouvidos pra falar menos e escutar mais. O único universo que interessa é o que está na cabeça dele.

É claro que eu comecei com as táticas de pedir, explicar, e fazê-lo se envolver nas pequenas tarefas, pelo menos verbalmente, para conseguir fazer o almoço (hambúrguer, arroz colorido e batatas fritas). Até aí tudo bem, tudo nos limites da civilidade. O problema, na verdade, é o excesso de felicidade que, segundo ele, é o motivo de todas as bagunças e gritarias que ele faz. Depois de devidamente abastecido o menino se transforma em gremlin (aqueles bichinhos lindos e fofinhos que viram monstros pentelhos e terríveis quando encostam em água, lembra?).

Foi a vez do reconhecimento do território (que durou o dia inteiro): Inspecionou praticamente todos os cômodos da casa, fez infinitas perguntas sobre os xampus e cremes de cabelo, a ausência da minha avó, a festa que ele pretende fazer aqui em casa sem pedir o meu pai, desarrumou ainda mais o meu quarto, fez performances artísticas, colocou todos os potes de biscoito na mesa, molhou o biscoito na coca-cola até derrubar o vidro, atrapalhou o cabelo e o sossego da minha namorada e quase me impediu de fazer o meu programa na rádio online. Também andou de costas na rua, não entendeu a diferença entre gostar e amar e conseguiu me deixar sem espaço para pensar.

No fim, entendi: ele só tinha o pacote de bisnagas. Mas queria o mundo e o mundo não cabia nele. O próprio querer era maior que o mundo. E qualquer ordem, regra ou orientação eram como prendê-lo no pacote. Duro demais pra digerir com os sonhos macios e infinitos de uma criança que não aceita limites.

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Sobre Paola Giovana

Sou catalisadora, capricorniana e artista. Faço o que gosto: crio. Acredito que vá gostar. Sei que ao menos não ficará imune. Minhas armas são irresistíveis: cinema, design, música e literatura.

Discussão

6 comentários sobre “Uma Criança e um Pacote de Bisnagas

  1. adoro qndo vc escreve, meu amor! além de tantas outras coisas lindas que vem de você, a escrita é sempre intimista e verdadeira!
    Parabéns pela primeira de muitas outras crônicas!
    te amo!

    Publicado por Mari Andrade | 14/10/2011, 22:11
  2. Muito bom!

    Publicado por Fernando Santosa | 14/10/2011, 22:41
  3. seu irmãozinho deve ser uma graça né? até imagino que loucura! hahaha
    seu blog tá lindo irmã, amei tudo!
    te amo muito lolinha 🙂

    Publicado por Vinícius Delvalle ♕ (@its_vinnie) | 15/10/2011, 0:48

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