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Prosa

Desejo

Você tem medo da força do seu desejo, por isso você foge. Você tem medo da forma do seu desejo, por isso você fode. E sempre soube que o que te toca é mais profundo do que a densidade de uma mão. O seu desejo não tem princípio e, eterno, também não tem fim. Não é etéreo, tem todo o peso da matéria decadente e podre que contaminou a sua essência. Você tenta fugir, porque não consegue controlar o inconcebível. Ignora as milhões de vezes em que o pensamento te toma inconscientemente e você voltar a lembrar e querer tudo o que já passou. Os mesmos cheiros, gostos, sorrisos, e até mesmo a mesma dor. A força do seu desejo te assusta. A proximidade e a propriedade com que ele te sonda faz com que você queira se esconder. Mas ele é como a sombra, e te acompanha em todo e qualquer lugar. Ainda que a razão tente encontrar subterfúgios e argumentos para te distrair – é quando a luz parece mais dura que a sombra se destaca mais. Você tem medo da força, da forma e do gosto do seu desejo. Você tem medo de que ele seja uma necessidade. Assim que tocar novamente vai sentir toda a força do vício te consumindo, te possuir.  O seu desejo não é só seu. A fome se alimenta de outras fomes, de outros gritos. E essa coisa, por tempos inominável – o seu desejo –, precisa vir à tona. Você tem medo de que ele se queime por inteiro, de tão reservado e contido. Tem medo de que a realidade seja simples demais perto de todas as fantasias que o seu desejo criou. Você não sabe, mas ele te dominou todo esse tempo. Você não sabe se quer se curar do vício. E sente a sua sede te levando novamente à procura de todas aquelas sensações. Você sabe que não vai se contentar. Sabe que o desejo de toda uma vida não vai se esgotar em um dia. Mas tem medo de secar tudo ao redor. Tem medo de que a força e a febre e o brilho do seu desejo queimem mais do que todos podem suportar. Você teme que o brilho cegue, que o prazer e o frenesi sejam demais. Mas é exatamente isso que você quer. Você quer transbordar no seu desejo, quer explodir de comer e se deliciar com cada pedaço da carne viva cujo cheiro nunca saiu de você. Quer que o perpétuo se perpetue a cada instante, a cada segundo. Você não vai saber parar.

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Sobre Paola Giovana

Sou catalisadora, capricorniana e artista. Faço o que gosto: crio. Acredito que vá gostar. Sei que ao menos não ficará imune. Minhas armas são irresistíveis: cinema, design, música e literatura.

Discussão

2 comentários sobre “Desejo

  1. Preciso nem falar que me identifiquei do início ao fim…maravilhoso paola…definiu perfeitamente esse fúria do desejar, essa insatisfação, esse medo do desejo morrer e acabar na própria explosão…sem palavras! Fase inspiradíssima!

    “voce tem medo de que a realidade seja simples demais perto de todas as fantasias que o seu desejo criou.”

    Publicado por Cari | 19/05/2011, 18:33
    • Engraçado, menina! Essas são coisas mais antigas, nada muito recente. Nem tinha pensado no quanto tinha a ver com o que a gente falou sobre o tema esses dias. E é, acho que a maioria das pessoas que sofrem de desejo se identificariam. dausdhua

      Publicado por Paola Giovana | 22/05/2011, 19:09

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