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Pensamentos Alados

Eu tinha pensamentos alados. Eles iam pra onde queriam. Nem sempre voltavam. Alguns, no entanto, tinham a época certa para retornar. Sempre que o tempo ficava mais frio eles chegavam com suas asas maiores, trazendo rajadas de vento mais fortes que qualquer tempestade. Apesar da impressão de magnitude que causavam eu sabia que eles cresciam muito mais quando longe de mim.

Aqueles eram pensamentos misteriosos. Eu nunca me dava conta de como eles estariam da próxima vez que os tocasse até que eles me arroubavam e me levavam ainda mais acima do que parecia seguro da última vez. Parece que eles não eram constituídos de uma matéria só. Havia um bocado de sentimento em suas cores, tenho certeza. E suas cores me cegavam. Eu podia passar dias, semanas, contemplando a mistura indefinida que se formava em suas asas quando dançavam comigo. Eles eram incrivelmente belos, mas eu suspeitava que corria algum risco sob suas presenças.

Quando o sol brilhava mais forte eles se afastavam, procuravam alimento em outra escuridão distante. Engraçado é que era nessas épocas que eu sentia mais frio e um vazio tão grande que se transformava em dor. Eu precisava daquele turbilhão de vento e pó, daquele movimento externo que desviaria meus olhos de mim. Toda vez que eles voltavam eu tinha algum descanso de tudo o que não gostaria de ver.

Hoje nevou. O frio que senti percorreu todas as vértebras da minha espinha, de baixo para cima, e se alojou no meu cérebro. Apesar do ambiente propício, os pensamentos não voltaram. Talvez houvessem perdido suas asas por aí e tiveram vergonha de voltar sem as cores impressionantes de suas penas. Mal sabiam eles que o que eu mais admirava era como conseguiam ter sombras tão absurdamente definidas.

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Insônia

Acordei chorando ontem. Chorei por tudo aquilo que não fui (por tudo aquilo que não pude ser).

É certo que fechei os olhos na tentativa explícita de sonhar. Acreditei que eles, os sonhos, só pudessem ser encontrados naquele estado cego, naquela vertigem que impediria, por fim, o ego de me controlar.

Pensei que abria os olhos, afinal, para todos os segredos que escondi de mim ao longo de toda a vida. Ainda assim, no labirinto recôndito dos meus sonhos, me deparei mais uma vez com a realidade. Ela era fria, nua e um tanto quanto gasta.

Chorei, portanto, as dores que não tive, os amores que não vivi e tudo aquilo que se destacava absurdamente nítido através da visão aguçada pela ausência de juízo.

Ninguém faz idéia das lacunas que deixei de preencher quando acordada, por medo de que alguém pudesse, de alguma forma, me ler feito livro aberto ou ouvir meus pensamentos atirados com toda força no mar das ilusões. Naquele instante, porém, eu não precisava mais de proteção.

Sem armadura ou escudo, me aproximei da realidade, tão nua e gasta quanto ela e tomada pela súbita aceitação da torrente de emoções que me acostumei a esconder. Não entendi, no entanto, qual fora o momento de lucidez maior: Havia o escuro. Depois, a umidade das lágrimas ao redor. E, em cada um dos momentos, uma noção superior do que eu realmente havia deixado de ser.

Ali, revelada pela ausência de luz, encontrei as verdades que escondia. Eu acordei chorando ontem. Hoje não consigo mais dormir.

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Do Fogo e do Vento

Sussurro fresco e cálido
Incendeia.
A fluidez das palavras
Ultrapassa a teia.

Sou vulcão, és sereia.
Toda a brasa em que mergulha,
Todo o néctar em que me embebo.
No final, sua doçura
Pura bruma, enlevo em segredo.

Por mais distante,
ainda seu canto.
Por mais vibrante o meu desejo
Por mais profundo o meu pranto,
Teu sopro me arde em vida,
Meu fogo te aumenta o encanto.

Palavras, já são delitos.
Olhares, faísca e vento.
Nem em sonhos mais bonitos
Ousaria a sua firmeza, certa e fria,
Dar vazão ao meu incêndio.

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Raio

Como um raio. Era assim que sua presença se anunciava ao redor. Não tinha medo, não tinha pudor. Era um raio. E caía violentamente sobre nossas cabeças, sobre nossos instintos. Instantaneamente causava suor. Seca, brilhante e fulgás. Ela passava e tomava o seu lugar,  cheia de si. De repente, havia só o seu rastro. O burburinho que permanecia como vestígio de seu domínio sobre nós. Ela era. E sua rápida aparição a tornava muito mais do que qualquer um de nós poderia suportar.

Naquela sexta-feira veio como luz, e não deixou vestígios. Raio sem som, o silêncio que carregava com ela aquele dia era assustador. Nem mesmo eu, a mais eloquente de todas, conseguia abrir a boca em meio a tanta  escuridão. Sabíamos, todos, sabíamos completamente, que aquela havia sido sua derradeira aparição.

A certeza era confirmada pelo modo como ela jamais houvera tocado aquele véu. Desta vez, desta única e última vez, ela o arrancara da face, poucos segundos antes de irromper chorando pela porta de bar de bangue-bangue. Quando se foi, o único som que se ouvia era o da porta batendo. O martelar insuportável da sua ausência contínua.

Completamente imóvel e muda, eu só conseguia pensar no que seria de nós. No que seria de toda aquela gente que se sentava ali em cada sexta-feira, de cada semana, de cada mês, de todo ano bissexto, só para observá-la, intocável e infeliz no piano negro lustroso, trágico por si só. O que seria da espera, da angustiante espera que costumava durar apenas quatro anos, se agora ela seria para sempre, ou tornar-se-ia espera pelo nunca mais?

Ela havia me olhado. Eu sabia que ela estava se despedindo quando me viu, segundos antes de transpassar aquela porta infernal para sempre. Por isso, também, me mantinha muda. Sabia que o gesto de arrancar o véu antes de sair era sua súplica extrema para mim, a escolhida no meio daquela infinidade de pessoas que a idolatravam. Era eu, somente eu, a alma errante e covarde que ela havia escolhido para ser sua e torná-la ainda mais infeliz. Eu não pude, não fui capaz de tornar minha a sua existência, nem de trocar de solidão com ela.

Por isso se despedira daquela forma implacável e perturbadora, raio sem direção. Revelara a todos o mistério que resguardara de mim, a escolhida, mesmo no instante anterior à partida, em nossa única conversa. A sensação de ser especial havia durado pouco, o suficiente apenas para não esquecer a cegueira causada por sua luz potencializada pelo desespero. O bliss, o êxtase, a metafísica toda do seu corpo desvanecera junto com o véu que ela rasgou quando saiu. Agora todos eram especiais, escolhidos para sofrer com ela a dor de ser um raio.

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Verbo Caído

Nunca vou me esquecer da chuva daquela tarde. Não era apenas ela que caía. Eu também me diluía, gota a gota, carne-viva escorrendo pelas grades dos esgotos. Parecia fácil, não fosse a dor que me tomava a cada gole que a terra bebia impiedosamente, sedentamente, rigorosa. Depois de me atirar em vários moinhos, resolvi não adiar mais o momento do fim. Levada pelos lençóis, caí desta vez no mar. Ali, fiz-me mártir, sangrei novamente, até secar nas dunas de sal. Fênix, renasci da areia e esqueci as cinzas. Lá fora ainda chovia e o fogo quente e úmido não conseguia me consumir completamente. Resolvi erguer-me, sem asas, e caminhar um pouco até que elas resolvessem aparecer e me levar.

Foi neste instante que te vi novamente. Pela sua sombra reconheci até o último fio de cabelo negro que me prendia. Era outro o corpo que te cobria, mas por baixo da pele a mesma luz cintilante e, acima, por fora, os mesmos fios negros, quase-antenas, que sempre me atraíam. Sem peso, e ainda sem asas, depositei-me ali mesmo, nos caracóis daquele ninho expressionista que cobria suas idéias mais excêntricas. Era ali o meu lugar, verbo caído não sei de onde. Nem nome tinha, nem palavra específica um dia fora. Mas tive casa, no seu pensamento.

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O Retorno da Palavra

Tenho uma paixão secreta pelas palavras cravadas no papel.

Exala delas o cheiro do seu esmalte vermelho vivo, sua rubra cor ao escrever desejos mais que proibidos, desejos meus.

Havia muito tempo eu não te via assim tão sóbria, sem aquela aura louca que me convertia em seu brinquedo secreto. Desde a última vez em que você me disse não, sou outra coisa menos entregue, menos deliciosa talvez. Desde aquela última vez você me persegue, como se o fim fosse uma porta pela qual você domina os meus sonhos.

Sonho às vezes durante o dia também. Meu corpo disfarça os sintomas da sua doença através da letargia que parece me acometer quando releio as frases absurdas que você me deixou. Mal sabia o quanto do seu cheiro, da sua cor restavam naquele papel. Era tudo o que eu tinha de seu, tudo o que restou das memórias que me obrigava a apagar. E agora? Agora eu também sou resto, sintoma da sua loucura dissimulada, cria do seu cio, vazio prenhe da sua imagem.

Neste retorno sou eu quem me despeço. É a minha vez de te tatuar, de fazer com que se lembre das nossas noites, de cada uma das noites em que eu sorvia com um prazer tão próximo da dor o bafo quente do àlcool que te dava coragem de ser minha. Meu silêncio se converte, neste instante, naquelas agulhas cheias de cor pra te marcar.

Meu site

Para continuar o ciclo de mudanças e concentrar o acesso aos meus trabalhos, inauguro hoje meu novo site: www.paolagiovana.com.br

Todos os textos antigos já foram importados para lá, e é lá que publicarei os novos textos à partir de hoje. Bora me fazer uma visita? \o/

2014 – A Virada – Adeus, Ano Novo!

Os anos agora passam sem que seja possível notar a diferença entre os dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. A sensação é de um continuum em que a única coisa que se altera, além do último algarismo que escrevemos nas datas, é a quantidade de fracassos que acumulamos.

Início de ano, portanto, é tão deprimente quanto os fins. Esperançosos, fazemos listas de metas que não passam da primeira semana. Logo que as férias terminam, somos engolidos por compromissos intermináveis e tudo o que sobra do que desejamos realmente ser e fazer segue sendo adiado até o próximo tempo livre. Quando este chega, enfim, estamos novamente tão cansados e esgotados que tudo o que conseguimos fazer é fazer nada.

Ainda não fui capaz de entender qual o lugar que nossa essência e individualidade devem ocupar no modo de vida atual. Se seguirmos a ordem esperada de estudo, trabalho, casamento e filhos acabamos presos neste ciclo de cansaço e frustração onde os sonhos são sempre empurrados para o fim da vida, no qual supostamente teríamos tempo e recursos para fazer o que quisermos, porém sem o mesmo vigor, a mesma paixão e a mesma coragem da juventude.

O que seria esta vida então senão uma grande perda de tempo, apenas cumprindo o papel de mais uma engrenagem do sistema de produção? Vejo a autenticidade e o desejo se apagarem dia após dia nas armadilhas das obrigações e responsabilidades. É por isto que as escolhas me assustam. Cada caminho que percorro me coloca um peso das experiências eternamente perdidas nos caminhos deixados para trás.

Ficar parada, no entanto, apesar de também ser algum tipo de escolha, faz com que eu perca não apenas algumas possibilidades de existência, mas todas elas. Gostaria de encontrar estradas mais flexíveis, em que fosse possível voltar ao mesmo ponto, à mesma encruzilhada, com os mesmos fatos outrora perdidos esperando apenas que eu os experimentasse sem este enorme medo de perder.

O grande problema, na verdade, não é a perda em si, mas a perda irremediável. Se eu soubesse que aquelas portas que se fecharam poderiam ser novamente abertas em algum ponto qualquer a escuridão seria ao menos suportável. O temporário é bem menos odioso do que o permanente, em se tratando de portas fechadas e ausências.

Mais um ano se passou como se nada houvesse acontecido. Realmente nada aconteceu: após mais uma noite veio outro dia em que o passado serviu apenas para engolir outras possibilidades de futuro. Adeus, ano novo! Feliz vida velha.

Águas

Mergulhar exige preparo. A superfície oferece sinais mais claros e adentrar em águas profundas não é tarefa fácil. Precisamos nos certificar de estarmos usando equipamentos adequados e ter um mínimo de noção de quanto tempo conseguimos ficar sem respirar para observar os mistérios do oceano.

Mesmo em águas conhecidas o desafio persiste. O fluxo não pára e, ali embaixo, tudo pode estar diferente da última vez que mergulhamos. É isto, na verdade, o que nos impulsiona: reconhecer o desconhecido e provar, para nós mesmos, que ainda somos capazes de enfrentar nossos medos, encarar novas ondas.

Balançar os pés na beira do cais já não me é suficiente. Eu certamente ficaria um pouco mais feliz, ou pelo menos me sentiria novamente viva se atendesse aos ímpetos de me jogar neste exato instante. Mesmo sem estar preparada.

Fim

Não posso escolher,
porque é desertar
ou desistir.

Penso em muitas coisas
que não posso ter agora.
Penso nas pessoas
que só pensam em ir embora.

É preciso saber qual é,
exatamente,
o problema.
O porquê das coisas serem
reais e obscuras,
dentro do poema.

Se não alcanço
a tua mão,
é que o perdão
já se perdeu.
Já escorreu
no frenesi das horas.

O relógio impõe
por si,
um ponto final?

A Fuga

Passa por baixo da cerca,
não pode pulá-la.
Olha pros lados, disfarça,
e caminha displicente.

Alcança uma rua movimentada.
Há carros, barulho, buzinas.
A cidade observa e testemunha
a fuga virando a esquina.

Ali, onde ninguém deveria te conhecer,
um rosto familiar.
A moça da TV te sorri,
você a leva pro bar.

Depois de muito beber,
fumar e gargalhar,
pagar toda a conta…
Ela dispensa o seu convite
para passar a noite.

Você volta, arrependida:
não avisou, não deu notícias,
não atendeu o telefone…

Bem desperta, a vida te espera
na porta de casa
cobrando o dia de ontem.

Heroína

Alguém através de mim quer escrever e se fazer ouvir. Alguma alma aleatória quer grafar randomicamente pedaços de palavras soltas e talvez sutis. Éter, Ester, estrela. Ex-bandida do almanaque envelhecido jogado na rua. Encontrada depois da enxurrada. Amarelada, mofada, podre nas páginas desgastadas e decadentes de mais uma vida esquecida. Ela também já fora heroína.

Máquina de Escrever

A proposta do trabalho de Análise Crítica da Arte era fazer um livro-objeto baseado em algum conteúdo que vimos na disciplina. Escolhi a entrevista de Agnès Varda, no Entrevistas – Vol. 3 de Hans Ulrich. Resolvi, como a Agnès, fazer algo que de certa forma aproximasse as pessoas de mim através da obra. Selecionei, então, muitas palavras que me chamaram a atenção na entrevista e com elas criei uma “Máquina de Escrever” em um teclado virtual que “fala” as palavras quando “tocado”. Assim meu livro-objeto transpõe a matéria e possibilita que vocês criem inúmeras histórias sempre que quiserem. =)

Para experimentar basta clicar nos links abaixo:

Máquina de Escrever – AV 1.0
Máquina de Escrever – AV 2.0

Como foi extremamente difícil escolher as palavras, novas versões virão com as outras 10 colunas de 60 palavras! =D

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